terça-feira, 9 de dezembro de 2008















Apetece-me escrever para mandar todas as pessoas que eu considerava que viviam dentro do meu coração, à ....................... dar uma curva e terem um alemão na cabeça que as fizesse esquecer que eu existo.
Desacreditar em tudo o que acreditávamos não é novidade nenhuma, mas desacreditar em pessoas que jamais desacreditaria, é dor, fico sem saber como agir, sinto-me como um barco à deriva não acreditando que consiga encontrar um porto de abrigo, depois de levar uma bofetada de duas ou três pessoas que jamais me passaria pela cabeça que algum dia me dariam, mas afinal quem eu sou?????? Sou uma pessoa normal, julgo eu. Mas se calhar julgo mal, mas é o meu julgamento e também tenho o direito de não admitir que me tratem como se de um uma jarra sem flores, de uma cor horrível e dada por alguém que não se gosta e como tal não se tem a coragem de a deitar fora e como tal põem-na de lado, talvez na garagem ou na arrecadação, ou mesmo como suporte de piaçaba fique bem.
Neste momento, ao fim de meio século de vida, até consegui ultrapassar algumas, poucas, mas algumas barreiras que pensava que não conseguia, porque doíam muito dentro de mim, e sentia-me mal, porque me criticava, massacrava-me, matava-me, sentia que tinha sido a culpa de tudo, do que tinha criado, senti-me culpada por não ter desejado ter filhos e ter tido a coisa melhor do mundo, sentia-me culpada por ter dado demais ou não ter dado nada, ter educado um rapaz sozinha foi dose, e além disso não me deram nenhum livro de instruções, nem como se mudava as fraldas, e com apenas 19 anos soube desde o primeiro dia tratar daquela criança como já tivesse tido 19 filhos, dei-lhe tudo o que pude dentro das minhas possibilidades, deixei, porque o quis de fazer muita coisa para ser mãe, só mãe, e mesmo assim, considerei-me má, considerei-me uma nulidade, hoje não, hoje acho que fui das melhores mães do mundo, dei educação a um Homem, que acho que sabe estar em qualquer situação, em qualquer lugar, um Homem culto, um Homem líder, um Homem de quem me orgulho com todo o orgulho que consigo ter. Só lamento não ter sabido a hora, o mês e o ano em que aquela criança deixou de ser criança e passou a ser Homem, e talvez por isso hoje somos duas pessoas com vidas próprias, que nada sabemos um do outro embora vivendo quase no mesmo sitio, mas a vida é assim, e eu não tomei certas precauções em relação a mim a salvaguardar-me de não levar bofetada e ter tempo de levantar a mão primeiro, porque eu acredito plenamente que cada criança que habita dentro de nós durante 9 meses, é só um ponto de criação, uma incubadora, depois de sair temos que ensinar-lhes a tratarem-se e a lutarem sozinhos, porque esses seres são seres próprios que não são nossos, viveram aqui, dentro de nós, alimentaram-se de nós, mas não são heras que vivem agarradas à árvore, são seres. Foi esse o meu erro. Todos temos um, até Descartes teve, porque é que uma simples mulher não haveria de ter. Mas sobre esse assunto não está esquecido nem arrumado, mas está na estante, lá bem ao fundo, porque nada melhor que o esquecimento para que nos tornemos duros e fortes.
Outras pessoas, e talvez essa pessoa leia este desabafo sabe que é para ela o recado ou a tristeza. Jamais esperaria ler uma resposta tão cruel, e chamo cruel com todas as letras e magoou-me até ao íntimo do meu âmago, porque veio de onde eu nunca esperaria que viesse. Existem pessoas, poucas, que nós quase sabemos em que estão a pensar, quase adivinhamos o que estão a sofrer, e sentimos-nos inúteis se nada pudermos fazer, mas fazemos sempre, e a cumplicidade que tínhamos já durava há 37 anos, e realmente é triste sabermos que afinal não conhecíamos essa pessoa.
Eu sou um ser crédulo. Ainda acredito no bem, e pensava que havia pessoas, poucas, que acreditavam como eu, em algo, em alguém. Mas afinal, é triste chegar aos 50 anos e olhar á volta e só ver estranhos, e pensar que as pessoas que chegam aos 100 anos como a D. Carlota da Conceição e estão felizes rodeadas de estranhos, que afinal até a tratam com carinho sem lhe serem nada, mas é o emprego delas, e sentem caridade.
Merda de vida esta.
Para ti Mãe, que sempre foste considerada a ovelha negra, ranhosa, eu hoje compreendo-te, talvez porque também eu sou considerada, ou fui, hoje já nem considerada quero ser, a ovelha negra e ranhosa como tu, mas afinal tu és como as árvores, quando morreres morres em pé e de cabeça bem erguida, porque podes dizê-lo bem alto que não foste um poço de perfeição, que tens o teu feitio, que também erraste, mas afinal quem está sempre por cima és tu, quem não vai abaixo és tu. Parabéns Mãe, és a mulher que eu queria ter sido.~
Tua filha desconhecida,
Eu.

4 comentários:

Gonçalo disse...

Este texto deixou-me ofegante, no entanto percebo que a minha dispneia é o teu alívio!
Não estou a par da totalidade da situação que te incomodou, no entanto vinte e quatro anos de vida já perceberam que o mundo é coberto de imperfeições transversais até às pessoas que mais amamos, mas quem nunca errou que atire a primeira pedra...E as imperfeições são apenas desafios à nossa maturidade que nos fazem crescer e reconhecer o mal para o nosso bem!
Pensa nisto...


Muahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh****

Anónimo disse...

É Bom ler os teus comentários e conhecer-te pessoalmente faz bem a qualquer Mãe, não vou dizer que deve ser delicioso ter um filho como tu, pois deve, mas com isso não quero dizer que o meu também não o seja, tem um feitio muito próprio que eu considero impróprio para com uma Mãe. É de um requinte e de uma educação de deixar qualquer pessoa "apaixonada", pois é um lider, nasceu com uma luz enorme por cima dele que faz com que tudo o que faz é bem feito. Mas para mim, Mãe, que o criou, que lhe deu o melhor e talvez o pior, estou a conhecer agora este Ser, este Homem, e garanto-te que não gosto nada do que estou a conhecer.
Assim como de pessoas que jamais me passaria pela cabeça que me tratariam mal, como se eu fosse a culpa da estupidez do Mundo, e isso magoa, magoa muito. E se eu estava cada vez a ficar mais branda, mais sociável, mais políticamente dada, agora estou a ficar de dia para dia cada vez mais fechada, com uma carapaça enorme, desacreditada em tudo, e talvez até de mim própria eu duvide, dúvido se estou com alguma sanidade, ou se estou a ficar burra mesmo. Mas a vida é assim, creio que os rios nascem no mar e correm para a serra.......
Um beijo grande
Ana

Patrícia disse...

Não sei se foi o facto de tambem ser Mãe, que inevitavelmente chorei a ler este texto.
A força das palavras, são uma flecha em direcção ao nosso coração... e se o meu está dorido aos 31 anos de "batimento", então é facil colocar-me no seu lugar e sentir um pouco esta dor.
Não há muitas palavras que se possam dizer, que sejam suficientes para apaziguar a magoa...

Leio muito sobre o tema "Pais&Filhos"... Mas de que adiante o saber, cuidar, o apreender a entender as reacções dos filhos?! Já dizia a velha frase: "Os filhos não são teus filhos... á vida pertencem"

POis eu digo: Não podemos caminhar pelos seus pés, nem muito menos tropeçar por eles!

Força!

Abelhaferrona disse...

Obrigado Patrícia pelas palavras.
É realmente triste vivermos com um ser humano dentro de nós 9 meses, e mentalizarmo-nos que ele é nosso. Engano, é triste habituar a sentir aquele ser pequenino a mexer ouvir o coração bater e pensar que ele vai ser sempre nosso.
É um engano, é só nosso como é a alcofa, a chucha, os peluches, enfim, enquanto somos úteis, depois ficamos na parteleira.
É uma tristeza muito grande, é um sentimento de perca, mas enfim tal como tudo começa tudo acaba.
Mas obrigada pelas palavras. Gostei dos seus blogues são muito muito interessantes para uma jovem.
Um abraço grande.
Ana Borges